
Sento-me na janela e fumo um cigarro devagar. O jorge palma canta baixinho, no concerto mais pequeno do mundo, e a vela arde tão devagar quanto o fumo que serpenteia janela fora...
"Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer."
Se dedicasse alguma coisa a alguém, seria à minha mãe. A minha mãe é sem a menor sombra de dúvida a pessoa que eu mais admiro. Não, não sou menina da mamã, , mas olho para ela e sinto-me orgulhosa de a ter por perto. E admiro-a por ser lutadora, por ter tido a coragem, a ousadia de vir para a grande cidade tirar um curso superior (na altura não era assim tão usual-talvez também por isso houvesse mais emprego, mas isso são outras conversas) e trabalhar ao mesmo tempo, comprar uma casa, criar uma filha. Tudo isto sem nunca deixar de ser genuína, simples e sem se achar mais que ninguém. Mas para mim é mais que muita gente. É o exemplo do que deve ser uma mulher contemporânea independente e com ambição (diferente de ser gananciosa). Obrigada mãe, já não se fazem pessoas como tu e eu só sou o que sou hoje graças a ti. Desculpa qualquer coisa, as birras e as chatices, as noitadas e o quarto (por vezes) desarrumado. Eu amo-te muito e nem sempre sei como demonstra-lo. Hoje faço-o desta maneira.
Pode ser que um dia te orgulhes de mim como eu me orgulho de ti.

Todos os dias acordo com uma certeza maior, a minha felicidade vem, em grande parte, da felicidade dos outros. Nos últimos anos cresceu em mim algo mais do que vontade, um desejo de ajudar quem mais precisa. Não se descreve um sorriso, não se escreve um olhar de alguém que se acabou de ajudar, é talvez o sentimento mais genuíno que se pode sentir, é amor. O meu coração cresceu (envelheu?) nos últimos tempos e, se antes a minha felicidade passava apenas pela satisfação das minhas necessidades, hoje vai muito além disso. Não sei dizer o que se passou em mim, o que me aconteceu, a verdade é que se durante algum tempo andei sem saber bem qual era a minha vocação, hoje sei que ela passar por ajudar os outros…soa a cliché, mas não é!
E se o corpo, esse viaduto da alma, não existisse? Se fossemos só alma, uma camada de pó reluzente de várias cores, será que as relações humanas seriam as mesmas? Até que ponto o corpo assume um papel importante em tudo aquilo que fazemos? Tenho a certeza que seria tudo muito diferente, porque se é verdade que o corpo/aparencia facilita as coisas para alguns também prejudica para outros. Por exemplo, possivelmente, muitas das pessoas que se sentem bem consigo mesmas apenas por serem bonitos ou elegantes, deixariam de o ser e o contrário também seria verdade, ou seja, pessoas menos atraentes fisicamente, mas fieis a si próprias e aos seus valores, ir-se-iam sentir maravilhosamente na sua não-pele. Não quero com isto desvalorizar a aparência, ela é importante e em (pen)última análise, também reflecte bastante do que somos: a postura, a forma como nos movimentamos e relacionamos com o espaço (e disso entendo eu!) mas, apesar de tudo isso, não pode(deve) ser o mais importante pois convinhamos, é muito mais fácil ser-se bonito a ser-se leal aos nossos valores, dá mais trabalho, horas de sono perdidas e se calhar uma outra ruga no rosto. E quando penso e escrevo sobre isto, faço-o para mim, para me relembrar porque muitas vezes também eu me esqueço, também eu me deixo corromper e enganar pelas aparências que frequentemente pouco ou nada têm a ver o sumo, a massa de que as pessoas são feitas.
"E um só momento nos sentimos deuses
Miguel Esteves Cardoso em Último Volume
One day in the park
I had quite a surprise.
I met a girl
who had many eyes.
She was really quite pretty
(and also quite shocking!)
and I noticed she had a mouth,
so we ended up talking.
We talked about flowers,
and her poetry classes,
and the problems she'd have
if she ever wore glasses.
It's great to now a girl
who has so many eyes,
but you really get wet
when she breaks down and cries.

...vou respirar fundo como se emergisse de um mar de muitas coisas boas e algumas (poucas) más. Foi assim durante quatro anos, um viver descomprometido e intenso dos dias que passavam e com os quais aprendemos tanto tanto da escola e da vida…e da escola da vida. A nostalgia que já se instala no meu coração diz-me que valeu a pena, valeram a pena todas as horas de estudo, todas as festas, todos os sorrisos e até todas as lágrimas. Guardo no meu peito amizades com as quais já não sei viver, memórias e momentos especiais com essas pessoas ainda mais especiais que parecem saídas de um filme português com banda sonora do Jorge Palma e serenatas à chuva (tenho a certeza que seria um blockbuster, ou melhor, um daqueles filmes de culto em stop motion ao genero Tim Burton). Enquanto o tão esperado dia não chega, vou desenhando com carinho as últimas linhas deste projecto de investigação que de tantas horas gastas, já não sei se amo ou odeio...