"Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer."
Não estou habituada à agitação da cidade, mudei-me para cá à pouco tempo por causa do emprego.
Tenho o meu mini estacionado à porta e a vespa na garagem do meu pai, mas vou todos os dias de transportes para o trabalho (por causa da poluição e porque é como se circula melhor em Lisboa). Trabalho das 8h às 15h no hospital, e à tarde frequento um curso de shiatsu. Ganho pouco ainda, estou a juntar para as minhas especializações em acupuntura e homeopatia para um dia abrir a minha clínica e gerir o meu pequeno império, como ele diz.
Os meus pais mudaram-se de vez para Montargil, têm um jardim, um pinhal e um estúdio de pintura onde gostam de estar e onde encontraram a paz que aqui não tinham. A minha mãe vem cá todos os fim de semana ver como estou, dar-me mimos, deixar-me comida para a semana e os conselhos de sempre.
Ainda não tenho muitos amigos por cá, às vezes telefono à Sara e à Margarida para aqui virem dormir. Outras vezes tocam-me à porta sem avisar, elas e mais uns quantos, trazem dvds, pipocas e enchem-me o quarto. Não gosto de estar sozinha. O meu pai ofereceu-me um gato, chama-se kiushi e adora deambular pelas escadas do prédio (as vizinhas adoram-no).
O prédio, aparentemente antigo por fora, é um mimo por dentro. O meu T0 é amplo, com poucos moveis e nenhum bibelô, em jeito minimalista . Tem uma kitchnet (sempre achei piada a esta palavra) a um canto, onde raramente faço refeições mas onde existe sempre um bule com chá. Do outro lado, uma cama japonesa, uma estante com livros e vinis, um gira-discos no chão e uma secretária com o portátil onde passo as noites . Na parede em frente fotografias, cartões e afíns. Tem ainda uma janela, com portas altas, estilo varadim parisiense, que gosto de escancarar em noites quentes de verão e ver esvoaçar os cortinados por entre as luzes da cidade...
Aqui na faculdade temos um sala de computadores e é comum, enquanto fazemos trabalhos ou pesquisamos, ligar-me ao Pandora (bem dito sejas) e é claro que as músicas ouvem-se pela sala toda ainda que eu baixe o volume das colunas - obviamente, preferia que assim não fosse, preferia ter forma de guardar a minha música para mim, um mp3 player por exemplo (situação resolvida até o próximo mês hehe) e eu não consigo, de forma alguma, trabalhar sem música.
Ora, eu até vou tendo o cuidado de fazer uma selecção que me pareça acessível a estes meus coleguinhas, nunca ponho coisas assim muito “estranhas”, como eles dizem, já para não criar atritos com ninguém, mas também não faço questão de por coisas que eles até seriam capazes de gostar (tipo Pussycat Dolls , que tive a desgraça de pôr uma vez e que eles me fizeram ouvir vezes seguidas. Se as oiço cantar mais alguma vez este ano, vomito a alma).
Digamos que tento não ser polémica na escolha das músicas, ponho umas musiquinhas bonitas. assim uns acústicos suavezinhos, uns Dave Matthews Band, Margaridas Pinto e umas coisas assim lindas e maravilhosas, mas enfim...
Estas são as músicas que levantaram mais comentários estúpidos ultimamente:
PJ Harvey - C'mon Billy. Durou dois minutos até a do computador ao lado se passar e dizer que ela grita tanto que lhe dá aflição.
Radiohead - Don't Leave Me High. Esta não entendo.É calminha mas daí até ao do computador ao fundo da sala dizer “parece um velorio”...
Billy Joel - The River Of Dreams, que me lembrei de pôr a seguir ao Buddy Holy porque me recordei do meu querido a comparalos. Ouviu-se logo um “mas estamos nos anos 70?!” ao que me apeteceu responder “90, espertalhão!”
Até o meu Ben Harper com o please bleed que acabei de pôr, e que mal começou a tocar ouviram-se logo uns suspiros parvos...
E estas músicas são todas lindas... :(
Não te posso dizer o que me atravessa a mente quando o mar me invade os olhos e as narinas e os ouvidos. Com a água salgada vem tudo o que as palavras não conseguem agrupar em frases.
É o mundo inteiro, o que existe contigo e o outro também, é o que vem e o que vai, é um barco e um gira-discos, o que me prometeste e o que me prometi a mim também. És tu e sou eu, somos os dois e o que não fomos e o que se calhar nunca vamos ser. É o achar-te diferente de mim num segundo e ver-te tão igual e tão entranhado no outro. É o sermos livres e termo-nos um ao outro e pensar para mim “nunca fui livre, sempre fui tua estupido, estivesse onde estivesse, com quem fosse, a fazer seja o que for. Não há nada que dilua a tua presença em tudo o que faço, mesmo nao sabendo onde andas, com quem andas, não preciso de saber nada disso, só que estou contigo e isso chega-me . A tua vida para lá dos meus muros só a ti pertence e eu confio em ti, apesar do que dizes e do que aparento”. E eu não te vou dizer isto tudo, porque “há coisas que não digo, mas nunca esqueço”.
Aperto-te a mão com força, tenho grãos de areia entre os dedos que arranham os maus pensamentos.
Aliso o chão ao lado da tua perna com a palma da mão, penso no quanto gostaria que a vida te fosse lisa, e o mar continua no seu encadeamento, vem à frente, volta atrás e respira fundo, avança mais um bocadinho.
Bem vistas as coisas, é o que nós fazemos também, não é? olha bem e diz-me se não tenho razão, andamos para trás um bocadinho e sempre que recuamos, ganhamos balanço para sermos maré cheia, nem que seja por um momento pequeno. A saber eu que esse momento volta, não me importo de vazar vezes e vezes sem conta.
“A coluna partida“, “O Suicídio de Doroty Hale” (fui agora ao google – amén -descobrir os nomes, porque até há bem pouco tempo era uma ignorante da vida e obra de Frida Kahlo) lembro-me de olhar para eles e pensar “como é que alguem reconhece nisto mais do que cenas mórbidas, nuas e cruas pintadas a cores folclóricas?”. Estes e outros quadros sempre me intrigaram a ponto de me incomodar a ideia de alguem gostar deles...até que vi o filme com a bela da Selma Hayek transformada em Frida kahlo, e finalmente percebi que é impossível entender as pinturas de Frida Kalho sem conhecer a sua vida. Era impossível alguma vez compreender o “Meu Vestido Pendurado” , que nem era dos que mais me incomodava (e que agora adoro) sem saber da estória por trás. No fundo, é como certas músicas que até já gostamos e que depois de compreender o seu significado para quem as escreveu, gostamos mais ainda porque passamos a perceber nos versos mais do que eles querem dizer...Assim sendo, para quem gostar ou tiver curiosidade de conhecer, está no CCB até dia 21 de Maio a “maior exposição europeia sobre Frida Kahlo”...eu vou lá amanhã, logo vos conto como foi muahhh!
Todos ouvimos música foleira. Eu ainda gosto de algumas e canto-as a arrumar o quarto ou passear o meu cão...Eu digo-vos as minhas, digam-me as vossas!
"All that she wants" dos Ace of Base (esta é uma all-time favourite para lavar a loiça e tomar banho) e "wake me up, before you go-go…lala" dos Wham. Depois vem a
"Always be my baby" e "I Will Always Love You" da Mariah e da Whitney respectivamente , porque uma nunca pode vir sem a outra, e porque é impossivel não saber aquelas letras tão profundamente dificeis de fixar depois de tocarem tantas vezes na radio.
Os Roxette, o Paulo Gonzo ( desculpa querido =Þ) e aquela da Dina do “Peguei trinquei e meti-te na cesta” , que cantei pela última vez com a cabeça fora do carro e os olhos fechados (só porque realmente não os conseguia mesmo abrir, por causa do vento) depois de terem falado mal do “pó de arroz” e da “cinderela” do Carlos Paião, que não merece porque foi dos únicos a fazer Pop bem feita sem cair na foleirice, cá deste lado do planeta;). E para terminar as "já fui ao brasil, praia a bissau, angola, moçambique...lalala" dos Da Vince e o “Forever young” dos Alphaville.
Pronto, este é o meu Top...Existem outras mas agora não me lembro. Vão debitando, eu hei-de lembrar-me de mais qualquer coisa.
Quero ir ao Brasil.
Mas também gostava de ir à Eurodisney outra vez, andar dez vezes seguidas no Space Mountain, ou à Isla Mágica em Sevilha andar naquela montanha russa invertida que só de olhar doi-me o estomago. E também não me importava de ir à Covilhã ver os meus primos. E porque não um fim de semana no Porto? Entretanto, não seria mal pensado conhecer a casa da minha tia “emprestada” em Moçambique e passar o dia a comer mangas arrancadas da árvore que ela tem no quintal, em frente à praia. Ou se calhar, podia dar um saltinho à Transilvânia, só para ver como é o castelo do Drácula de perto. Mas não, não, eu queria mesmo era ir a Barcelona e ver todos os museus e sítios que deixei por visitar...Ou em vez disso, ir até aos Estados Unidos e atravessar aquilo tudo de carro, ir até New Orleans ouvir os velhotes tocar, conhecer mestres obscuros do Blues no Mississipi, dormir ao relento no Grand Canyon (e levo o meu cão para comer os escorpiões e isso), ir até Roswell porque “Yo no creo en brujas, pero que las hay...” ou sei lá, ir a São Francisco passear-me naquela rua que parou nos anos 60´s...Só que depois, começo a pensar e realmente, eu nunca fui a Itália beber os capuccinos que a Inês tanto fala...nem a Viena de Austria passar um dia e uma noite pelos caminhos que o Jesse e a Celine percorreram, dar um beijo na Roda Gigante e ouvir cantar um poeta de rua...Mas bom bom eram uns diazinhos em Porto Covo ou Vila Nova de Mil Fontes ou na Zambujeira... E também era capaz de ser engraçado ir ter com a Sara a Madrid, ou com a Margarida à Holanda, ou com a Vania aos Estados Unidos...
As vezes olho para ti e vejo-te do tamanho de um dedal...pequenino, mais pequenino do que eu, de olhos arregalados com essas linhas semi-transperantes que te circundam a irís e onde me encontro quando te demoras sobre o meu rosto...Ás vezes olho para ti e vejo-te do tamanho de um rebuçado, quando bebes a água fresca e dizes acriançado que “gostas tanto de água”, quando me agarras pela cintura e elevas no ar a deitar a lingua de fora à gravidade...a gravidade, a matemática, a química, a física quântica, nada faz sentido ao pé de ti, desafias o mundo com uma audácia
| You Are Most Like Miranda! |
While you've had your fair share of romance, men don't come first Guys are a distant third to your friends and career. And this independence *is* attractive to some men, in measured doses. Remember that if you imagine the best outcome, it might just happen. Romantic prediction: Someone from your past is waiting to reconnect... But you'll have to think of him differently, if you want things to work. |
Posto isto, ontem vi o “History of Violence”, que por ter estado nomeado para dois oscares, para palma de ouro em cannes e não sei se para algum globo de ouro, julgava um bom filme...bom filme “o tanas!”, um horror mas um verdadeiro e puro horror. Tudo bem que não sou adepta deste genero de filmes, e isso talvez faça parecer suspeito aquilo que digo, mas de qualquer forma um bom filme não é aquele que agrada até mesmo aos não-fãns e os faz pensar ao sair da sala “sim senhor, um bom filme dentro do genero”? ainda para mais um filme tão bem aclamado e com estas nomeações.
Não gostei do argumento, uma história que não traz nada de novo, e se em algumas críticas li várias vezes que “É sobretudo a violência crua/fria que se destaca neste filme” eu diria que é sobretudo a violência ridicularizada e exagerada, um exagero do principio ao fim com o protagonista a fazer as vezes de super homem a matar tudo e todos com um pé engessado e um tiro no ombro, já para não falar nas cenas de sexo e nudez despropositadas. Isto não é a vida como ela é...pelo menos a minha.
Imediatamente a seguir ao filme é claro que se gerou discussão em torno do assunto, com uns (a maioria) a defende-lo e outros (eu e ele) perplexos . Tenho sempre uma atitude passiva nestes casos, na espectativa que os que gostaram me convençam com argumentos válidos do porquê de o acharem um bom filme, mas a verdade é que isso não aconteceu e eu continuno na mesma.
Que existam filmes como este não me preocupa. Preocupa-me sim que tenham destaque e tanta exposição em detrimento de outros, certamente mais interessantes, e que existam pessoas que os levem ao colo... “É uma questão de gostos” como se costuma dizer para acalmar as discussões em vez de as levar ao cerne. Sim, é uma questão de gostos mas é estranho na mesma e continuo sem compreender...Será que não o vêem, como eu vejo? “Se calhar esta-me a escapar qualquer coisa” dizia ele...pois, se calhar está-nos a escapar qualquer coisa querido.
Acontece que eu gosto de ler. Gosto MUITO até, faço-o com devoção, às vezes devoro livros aos três e quatro de uma vez, já li muito e sei que não li nem uma ínfima parcela do que gostaria de ter lido e encontro nos livros uma forma de melhorar a forma como escrevo, como me expresso, como vejo o mundo e as pessoas em geral. Aprendo e descubro com muito prazer os clássicos, os contemporâneos, os históricos, os romances, os policiais, os contos, tudo o que me vier parar à mão. Ou quase tudo.
O respeito que nutro pela literatura em geral faz-me questionar uma série de coisas (tal como faço com a música, com o cinema ou tão simplesmente, com a comida) e o Paulo Coelho é uma das que mais me impressiona e que desconfio nunca vir a ter capacidade de aceitar e/ou compreender. Já li quase todos os livros dele (tive o infortúnio de receber, num aniversário e de uma assentada só, pelo menos 4), li A Brida, O Diário de um Mago, O Alquimista, o Verónika decide morrer, até o Maktub (livrinho engraçado no meio disto tudo), sei lá que mais, e de todos (menos do primeiro) restou-me a mesma sensação que teria se fosse comer no MacDonalds, uma sensação profunda de estar a ser enganada, de ler uma e outra vez o mesmo e único livro, vazio, escrito para fazer dinheiro, intelectualmente desonesto. O Paulo Coelho é fastfood e, se ninguém contradiz que o fastfood é nefasto para a saúde, porque é que ninguém questiona os efeitos colaterais no leitor dos livros dele? Porque é que ninguém questiona a falsa mensagem de magia, de Richard Bach formatado (sim, pois, vai onde te leva o coração, já sabemos, já sabemos), de ouçam-os-conselhos-do-mago-que-eu-é-que-sei? Porque é que ninguém questiona a pobreza daqueles livros?
Já ouvi de tudo e nada me convence. Já me disseram que mais vale as pessoas lerem aquilo do que não lerem nada, que é uma questão de gostos, tudo argumentos falaciosos. Não é verdade que mais vale as pessoas lerem aquilo do que não lerem nada, não é.
Não digo que ninguém deva ler o Paulo Coelho, não é nada disso, cada um come o que quer e eu sei que há muita gente que gosta do MacDonalds, apesar de achar isso insano. A questão é que me parece importante que se chamem as coisas pelos nomes e acho ofensivo para a classe que se chame escritor ao Paulo Coelho (tal como acho ofensivo que se chamem hamburgueres do Macdonald). Aquilo até pode ser levezinho, ler-se bem, pode ser entretenimento mas nunca vai ser culturalmente relevante, nunca vai ser um livro, nunca vai ser bem escrito, bem imaginado, bem nada. É uma salada de legumes enlatados, uma sopa instantânea, um saco de cebola desidratada que incha com água. Existem dezenas, centenas, milhares de escritores 'leves', com livros fáceis de ler, divertidos, imaginativos, livros que falam de magia também, livros que dão mensagens de esperança, livros bons para levar para a praia, para ler no comboio, para ler só por ler mas, ora bolas,só não têm máquinas gigantescas de marketing atrás. Os seus autores não se fazem passar por magos sérios, são apenas escritores, provavelmente nem vendem assim tanto porque não são conhecidos nem polémicos. As prateleiras das livrarias e das bibliotecas ardem de tanto livro à espera de ser descoberto e aí, entra novamente a lógica do fastfood. Paulo Coelho é fácil, não é preciso procurar, encontra-se até nas bombas de gasolina, não dá trabalho nenhum. Ou seja, no fundo até se sabe que é mau, mas oh, está aqui mesmo à mão de semear, até nem é caro e toda a gente conhece.
Um prego será sempre mais verdadeiro que um hamburguer do Macdonalds, digo eu, e no fundo até custa o mesmo. Ao menos sempre é carne de verdade.
- Só mais três minutos amor...
- Está bem, só mais três minutos.