Apontamento I

Podemos estar cercados por pessoas que nos adoram incondicionalmente, que o repetem e demonstram a toda a hora. Mas a nossa personalidade é moldada pelo desejo de agradar àquela pessoa que, não importa o que façamos, terá sempre uma crítica a apontar.
Mudam-se os tempos...

Quando era pequena costumava deixar pétalas de flores perdidas pelos livros. E não podia ser qualquer uma, eram todas diferentes, tão diferentes que hoje , ao folhear livros antigos, tenho um inventario da flora existente no nosso jardim daquele tempo. Não me lembro porque o fazia, mas tenho ideia que se não era por capricho era para as arrecadar nos meu diário que escondia a sete chaves atrás do canteiro dos amores perfeitos. Agora, na vez de pétalas de flores, colo post-it´s com citações que gosto na contracapa dos livros, na vez do diário e da caneta roida , sento-me ao computador abro o 'word' e vou deixando 'apontamentos' perdidos pelas catacumbas do meu computador...

Já não sei estar de férias.


Acordo tarde, a horas de lanchar e com despertador. O John Mayer toca no gira-discos improvisado enquanto tomo um banho demorado...
Estou aborrecida. Acho que sofro de uma espécie de depressão inicio de férias. De tanto ter que fazer em tempo de aulas acabo por ficar entediada com a inércia pós-exames. As miúdas vão para as suas casas, cada uma mais longe que a outra, a Sara está em Barcelona, o Ricardo em Londres e o Tiago na Holanda bem como o Joãozinho e o Mesi, os “emplastros” (sim, é mais um dos meus incompreensíveis termos carinhosos) que lá foram ter com ele e me deixaram cá , na Lisboa mediania, a desejar que voltem depressa para me salvarem do desterro que é estar de férias e não ter amigos por perto.
Demoro algum tempo a familiarizar-me com isto de “não ter nada que fazer” , e quando me começar a habituar já as aulas estarão a começar novamente e já o meu biorritmo se alterou o suficiente para me voltar a custar levantar às 7h da manhã e enfrentar a cidade do “peixe frite”. Seria bem melhor, se na vez destas interrupções parvas de três semanas, tivéssemos de mês a mês, uma semanita de descanso. Sempre atenuávamos o cansaço q.b. sem alterarmos o biorritmo, que por esta altura da vida se caracteriza por ser muito sensível a alterações horárias, habituando-se facilmente ao “dolce fare niente” , que é como quem diz, tornamo-nos uns preguiçosos de primeira! Mas enfim...

Apetecia-me sair de casa, pegar na Polaroid e tirar fotografias...mas chove lá fora e não tarda o semítico sol de Inverno desaparecerá tão depressa quanto apareceu...

Solitária companhia.

Dave Matthews Band em Portugal [25.05.07]


“Finalmente!”(seguido de um sorriso parvo) – Foi a minha reacção e concerteza a reacção de todos os que há tanto tempo esperavam por eles. Ainda que um bocadinho carotes, os bilhetes estão à venda desde dezembro e eu vou já comprar o meu!

Susaninha estamos lá ;)*

Aos que por aqui passaram, aos que passam,

Feliz 2007 !

No one miss 'summer' like i do.

O Verão, quero o verão. Uma toalha estendida na areia fina da praia e eu sobre ela, de olhos semicerrados pelo sol a brilhar intenso na minha direcção, na direcção da minha pele, da minha cabeça, a fazer esquecer os meus dilemas pessoais e impessoais, as obrigações, a minha solidão, o meu coração, o meu cansaço.
O verão, quero o verão. Um dia longo e tardes alaranjadas passadas à sombra fresca de um qualquer arbusto no jardim da despreocupação; noites musicais, festivais, uma mochila às costas e um comboio com destino (in)certo para longe do vazio que é não ter o que me prenda.
O verão, quero o verão. Uma maré tão cheia, capaz d'afogar preocupações, ressuscitar paixões na espuma imaculada dos dias longos, cada vez mais longos a desafiar a (meteoro)lógica frigida do Inverno.
O Verão, quero o verão. Fazer da noite dia, da manhã madrugada e da tarde alvorada num calendário arbitrário sem amanhã nem dia seguinte.
O amor, sempre o amor ou a falta dele.
Lua Adversa


Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles

...e esta sou eu [ acertas-te em cheio Gui ;) ].

Bilhete de Identidade

Gosto do cheiro a terra molhada num pôr-do-sol soalheiro, gosto de "torradas aparadas" ou croissants tostados com queijo ao pequeno-almoço, gosto de ouvir Sigur Rós no hi-fi da sala, gosto de comprar cachecóis coloridos, gosto de escrever palavras soltas em blocos de notas confusos, gosto de ler livros encardidos de biblioteca pública ou desfolhar capas de cds em bancas atulhadas de discotecas na baixa; gosto de visitar sítios encantados, gosto de citar citações pertinentes, gosto de escrever com canetas de acetato no espelho grande do meu quarto; gosto de ouvir o Jazz velho da mãe, gosto de participar em tertúlias estimulantes e interessantes, gosto do chocolate preto que acompanha o café elegante, gosto de ouvir o som agressivo da chuva a partir as vidraças (…)
A culpa é de Hollywood

...das telenovelas brasileiras, do Jesse e da Celine, do Richard Linklater e de outros tantos grandes grandes sacanas que como eles ajudaram a criar a ideia maquiavélica de que só UMA pessoa nos completa, “a tal”, a “alma gémea”, “ele”, “ela” etc. A culpa é deles, minha e dos que como eu padecem deste (ainda não percebi se...) mal ou bem.
Eu sei. Sei bem que o que interessa é ter vivido, ter sentido toda a palete de emoções Caran d'Ache que o amor evoca. Porque muitos há que passam uma vida inteira sem sentir “assim” mas até que ponto não serão eles mais felizes? Mais felizes do que os que sentiram e experenciaram , ainda que por momentos, o “amor puro”? Felizes os que ignorantes porque deles é o reino da ingenuidade.
A perfeição nunca irá superar a perfeição, não da mesma maneira, não tão depressa, não tantas vezes (ainda que tu aí me digas o contrário). Tenho em mim que há um grupo restrito (ou não) de pessoas que sentem desta forma e não sei que vos diga, digam-me vocês a mim...Fico contente por ter sentido assim, por não ser mais uma, por olhar para a banalidade e reconhece-la ao longe, feliz por (re)conhecer o amor...Mas triste, uma tristeza que não sei bem de onde vem (parece que é das vísceras, é capaz de ser do fígado) nem porquê...talvez porque o coração também se cansa, ganha tendências compensátórias e formas estranhas de se proteger, não do amor, mas do fim do amor...


PS: A culpa é também do Shakespeare e do Walt Disney !
Dezembro

Tinha saudades da chuva, de andar de casaco (encarnado hihi), de molhar os pés. O calor que eu tanto gosto, quando em demasia, deixa-me num estado de apatia que, a ser agradável, acaba por se tornar cansativo.
Espero que com esta água a vida volte a dar de si.

Bom dia Dezembro.
Daqui, de onde te escrevo, de onde morre um coração...

...morro aos poucos, devagar pelo o Outono, por cada folha que cai inerte no chão e tu sem aparecer. Morro, morro, morro por dentro, por fora, pelos lados. É outono lá fora e cá dentro também. Arrancaste-me a Primavera do corpo, o Verão da epiderme e agora não sei o que vai ser de mim.
Por isso volta, volta para o energumero de onde nunca devias ter saído, para o qual nunca me devias ter levado. Porque (às vezes, só às vezes) dói. Dói tanto a ausência. Não a tua, mas a desse lugar. E agora, todos os lugares são iguais e nenhum se assemelha de longe ao lugar onde fiquei, onde o tempo parou e o mundo se perdeu. E se a perda é um golpe duro, o crescimento é um processo doloroso e dizer Adeus um sacrifício. Custa-me o fim. Do que quer que seja.. Custa-me mudar, custam-me mudanças. Mas a sobrevivência é uma urgência implacável, e é inequívoco que o mundo avança sem nós, se pelos abismos nos demoramos.
Por isso, daqui, de onde te escrevo, de onde morre um coração, pudesse eu parar os teus olhos, para neles parar os meus e dizer-te que, melhor que todas as paixões, conhecer-te foi tanto mais.
Tanto.
Isto tem dias que é difícil...


Ás vezes, só as vezes, quando a brisa sopra de leve, o céu se desfaz horizonte abaixo em guaches Caran d'Ache e o Sol me bate nos olhos enquanto caminho, há qualquer coisa. Pode até ser só isso. E a sugestão do sonho da noite anterior. Ou até apenas a poluição do ar. Mas sei que choro. Não um pranto copioso. Não. Caiem-me apenas algumas lágrimas. Mas pode ser só do sol.