"Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer."
Já não sei estar de férias.
Acordo tarde, a horas de lanchar e com despertador. O John Mayer toca no gira-discos improvisado enquanto tomo um banho demorado...
Estou aborrecida. Acho que sofro de uma espécie de depressão inicio de férias. De tanto ter que fazer em tempo de aulas acabo por ficar entediada com a inércia pós-exames. As miúdas vão para as suas casas, cada uma mais longe que a outra, a Sara está em Barcelona, o Ricardo em Londres e o Tiago na Holanda bem como o Joãozinho e o Mesi, os “emplastros” (sim, é mais um dos meus incompreensíveis termos carinhosos) que lá foram ter com ele e me deixaram cá , na Lisboa mediania, a desejar que voltem depressa para me salvarem do desterro que é estar de férias e não ter amigos por perto.
Demoro algum tempo a familiarizar-me com isto de “não ter nada que fazer” , e quando me começar a habituar já as aulas estarão a começar novamente e já o meu biorritmo se alterou o suficiente para me voltar a custar levantar às 7h da manhã e enfrentar a cidade do “peixe frite”. Seria bem melhor, se na vez destas interrupções parvas de três semanas, tivéssemos de mês a mês, uma semanita de descanso. Sempre atenuávamos o cansaço q.b. sem alterarmos o biorritmo, que por esta altura da vida se caracteriza por ser muito sensível a alterações horárias, habituando-se facilmente ao “dolce fare niente” , que é como quem diz, tornamo-nos uns preguiçosos de primeira! Mas enfim...
Apetecia-me sair de casa, pegar na Polaroid e tirar fotografias...mas chove lá fora e não tarda o semítico sol de Inverno desaparecerá tão depressa quanto apareceu...
“Finalmente!”(seguido de um sorriso parvo) – Foi a minha reacção e concerteza a reacção de todos os que há tanto tempo esperavam por eles. Ainda que um bocadinho carotes, os bilhetes estão à venda desde dezembro e eu vou já comprar o meu!
Susaninha estamos lá ;)*
O verão, quero o verão. Um dia longo e tardes alaranjadas passadas à sombra fresca de um qualquer arbusto no jardim da despreocupação; noites musicais, festivais, uma mochila às costas e um comboio com destino (in)certo para longe do vazio que é não ter o que me prenda.
O verão, quero o verão. Uma maré tão cheia, capaz d'afogar preocupações, ressuscitar paixões na espuma imaculada dos dias longos, cada vez mais longos a desafiar a (meteoro)lógica frigida do Inverno.
O Verão, quero o verão. Fazer da noite dia, da manhã madrugada e da tarde alvorada num calendário arbitrário sem amanhã nem dia seguinte.<>
Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
Cecília Meireles
...e esta sou eu [ acertas-te em cheio Gui ;) ].
Eu sei. Sei bem que o que interessa é ter vivido, ter sentido toda a palete de emoções Caran d'Ache que o amor evoca. Porque muitos há que passam uma vida inteira sem sentir “assim” mas até que ponto não serão eles mais felizes? Mais felizes do que os que sentiram e experenciaram , ainda que por momentos, o “amor puro”? Felizes os que ignorantes porque deles é o reino da ingenuidade.
A perfeição nunca irá superar a perfeição, não da mesma maneira, não tão depressa, não tantas vezes (ainda que tu aí me digas o contrário). Tenho em mim que há um grupo restrito (ou não) de pessoas que sentem desta forma e não sei que vos diga, digam-me vocês a mim...Fico contente por ter sentido assim, por não ser mais uma, por olhar para a banalidade e reconhece-la ao longe, feliz por (re)conhecer o amor...Mas triste, uma tristeza que não sei bem de onde vem (parece que é das vísceras, é capaz de ser do fígado) nem porquê...talvez porque o coração também se cansa, ganha tendências compensátórias e formas estranhas de se proteger, não do amor, mas do fim do amor...
...morro aos poucos, devagar pelo o Outono, por cada folha que cai inerte no chão e tu sem aparecer. Morro, morro, morro por dentro, por fora, pelos lados. É outono lá fora e cá dentro também. Arrancaste-me a Primavera do corpo, o Verão da epiderme e agora não sei o que vai ser de mim.
Por isso volta, volta para o energumero de onde nunca devias ter saído, para o qual nunca me devias ter levado. Porque (às vezes, só às vezes) dói. Dói tanto a ausência. Não a tua, mas a desse lugar. E agora, todos os lugares são iguais e nenhum se assemelha de longe ao lugar onde fiquei, onde o tempo parou e o mundo se perdeu. E se a perda é um golpe duro, o crescimento é um processo doloroso e dizer Adeus um sacrifício. Custa-me o fim. Do que quer que seja.. Custa-me mudar, custam-me mudanças. Mas a sobrevivência é uma urgência implacável, e é inequívoco que o mundo avança sem nós, se pelos abismos nos demoramos.
Por isso, daqui, de onde te escrevo, de onde morre um coração, pudesse eu parar os teus olhos, para neles parar os meus e dizer-te que, melhor que todas as paixões, conhecer-te foi tanto mais.
Tanto.



