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Terça-feira, Março 29, 2005
"Cheira a terra molhada"
...e à chuva já só fico eu...

Quando tudo era paz, e as nossas vozes ecoavam límpidas lá, no pequeno vale que durante muito tempo foi apenas nosso, o que eu imaginava do Mundo, do futuro estava longe da realidade que a distancia impôs entre nós...
Naquela altura, não havia maldade, não havia tempo, havia uma casa onde nunca existiu tristeza e a nossa alegria contagiava os demais que por ali deambulavam deliciados com as travessuras constantes.
Adorava-mos vestir roupas iguais, trocávamos imensas vezes de fita, de bonecas e depois de já termos ouvido do Pai, saíamos para a rua de mãos dadas com tanta força, como se a adivinhar que um dia nos iriam separar assim...
Lembro-me do teu cabelo, era loiro (e como eu te invejava por isso) , da tua voz, dos traços delicadamente desenhados no rosto que ainda hoje , em horas mortas, quando me afogo em nostalgia imagino tal e qual, com a mesma ingenuidade infantil que o tempo nos tirou. E como era bom não ligar ao que Pai dizia...tantas foram as vezes em que, lá na terra, fugíamos para a chuva, descalças, dançando e esbracejando sobre a areia molhada, acabando por sujar os nossos maravilhosos vestidos. Quando mexias os lábios e dizias baixinho - “Cheira a terra molhada” - sabia imediatamente que a próxima coisa a fazer era descalçar os sapatos e correr para a porta da rua antes que alguém nos visse...
Depois vieram os adultos...O tempo fluiu sem nós, o Eu e Tu ficaram perdidos, espalhados pelos retratos que, hoje são para mim viagens preciosas mas mais do que isso, uma forma de me manter perto de ti, de Nós...*
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Domingo, Março 20, 2005


PS: Obrigada (...e também chorei)
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Terça-feira, Março 15, 2005
Adeus

"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus. "

Eugénio de Andrade


...dos meus poemas preferidos, é de asfixiar.
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Terça-feira, Março 08, 2005
Hummm, sabe tão bem...



Vi hoje da minha janela a Primavera acenar-me ao longe. Sorri-lhe, e de cabeça erguida inalei da sua brisa o melífluo crepúsculo que agora se fragmenta em réstias de uma agradável nostalgia e embate nas vidraças, todos os dias pintado-as em tons dourados do que ao longe se assemelha a reflexos de uma tela rabiscada por Monet...
Empoleirei-me na janela e ali fiquei deliciada, a receber desse fim de tarde o convite antecipado da noite que surgiu com o desvanecer do horizonte...

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Sábado, Março 05, 2005
Não, eu não quero ser Só mais uma...


Ansiedade, sono, livros, canetas roídas, cansaço, muito cansaço e o tempo que corre alienado a dilacerar os dias cada vez mais curtos e preenchidos. No topo, o receio, o sempre inconveniente medo que obstina e teima em não largar os pensamentos. Medo do futuro próximo e principalmente a longo prazo. Recuso-me a ser uma frustada, e muito menos uma acomodada a uma rotina, um emprego que não me satisfazem...e pensar que há tanta gente assim, disposta a abdicar dos seus sonhos por uma realização aparente iludida com falsas convicções resultantes de uma qualquer impossibilidade que surgiu no caminho...Não os culpo, a vida ás vezes “força-nos” a seguir caminhos que não aqueles que pensámos mas, ainda assim há sempre uma força que resiste a todas as pressões exteriores e mantém o vivo o Sonho...



PS: O sacrifício dos exames está a começar, desejem-me sorte =)
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Cumplicidades

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